O recente atentado me levou a inúmeros questionamentos - não apenas pela crueldade e pelas mortes, mas também porque o tema liberdade de expressão me é muito caro! Inclusive tema discutido em meu trabalho de conclusão de curso de Direito (trabalho o qual tive o imenso prazer em receber o prêmio de menção honrosa). Estudei sobre a liberdade de expressão, como ela é tratada no Brasil, nos Estados Unidos e na Alemanha (pois são países de grande influência acadêmica no direito brasileiro, e que entendem os limites da liberdade de expressão de modos "distintos"), analisei ainda a jurisprudência dos três países. Posteriormente, aprofundei-me no humor, perguntando-me "o que é humor?", "porque rimos?", "qual a estrutura de uma piada?". E, por fim, busquei alguns julgados no Brasil - envolvendo, principalmente, os comediantes que vocês todos conhecem!
Após tanta leitura, muitas horas de vídeos de stand up comedy e muita discussão, pude ver, com imensa clareza, a beleza da piada, o quão superadora é uma boa gargalhada! O quão delicioso é rir e se ver rindo sem parar! E, sem dúvida, existe MUITA piada boa no "mercado" (sim, o humor tem todo um mercado próprio, e bem lucrativo). Entender o poder de uma piada me foi um tiro no estômago, por que eu pensava: "mas é essa piada que eu condeno que está me movimentando para questiona-la". Então, porque raios ter limites? Se a discussão e o escracho da discussão nos movem? (E me moveu). É nesse contexto que, a princípio, tentei encontrar minhas respostas... no contexto de vamos rir, porque rir é bom e saudável! Mas o pulo do gato foi pensar qual risada é saudável para quem? Quem são os comediantes brasileiros? De que classe pertence, qual gênero deles, qual a cor deles? E o mais importante.. as piadas são sobre quem? Ahn, não me diga que você conhece boas piadas de homem, heterosexual e branco? Sem hipocrisia, garanto que para cada piada dessa você tem 3, 4 ou 5 piadas de negros, gays e mulheres! Aposto (e ganho)!. E o que isso tudo tem a ver com o atentado? Vou chegar lá!
Infelizmente, vivemos em uma cultura marcada pela inércia - onde o questionamento e as indagações não são bem vindas. Então, mais uma vez, infelizmente, nós paramos para pensar em momentos de dor, momentos de sangue! E o atentado tem um poder de nos chacoalhar (quantos textos não estamos lendo e compartilhando, quantos #jesuischarlie prá lá e prá cá); mas tristemente, um atentado tem o poder também de nos embaçar a visão! O que vemos? Vemos terroristas assassinos! Mas há quem veja, muçulmano, fundamentalista, adorador de um Deus sei lá quem, que prega o ódio. Sabe esse pensamento que está correndo por ai? É embaçado demais!! Mas é exatamente isso que uma piada "ruim" faz: ela escolhe uma pessoa mais frágil e bate (mais frágil sim, ou vai me dizer que muçulmano na França é maioria, ou tem, em regra, bom emprego, ou não precisa lutar diariamente para ser tratado igualmente e com mesmos direitos?).
Por outro lado, há quem diga, mas o humor questiona, não era você que estava falando sobre a importância de se indagar? Exato! E é ai que está a beleza do humor, ele questiona! Por isso que bater em estereótipo é cretino, porque não tem nada de questionador, é sujo! É reforçar caricaturas, e, infelizmente, foi isso que algumas charges dos cartunistas de Charlie Hebdo fizeram, bateram muito no Islã e nas caricaturas relacionados a ele. Muitos dos desenhos são completamente estereotipados, retratando barbudos com vestes características e armas? Oi? Exatamente isso que você leu: oi?
A piada que faz referência de negro a um macaco é nojenta, é criminosa e gera ódio, e tudo disfarçado de riso! Afinal, é só uma piada! Mas a charge que faz referência de muçulmano com fundamentalismo e armamento é tão suja quanto! E é criminosa sim!! Porque escolhe uma minoria e bate.
Tiros não são bons, tiros não são bem vindos! O natural da vida é sangue nas veias - pulsando, e não sangue manchando uma redação de um jornal! Mas socos também não são bem-vindos, bem como o preconceito disfarçado de riso não deve ser o natural. Jamais!
Vivemos a época da ditadura do riso, afinal é só uma piada, é só uma caricatura... Inúmeros programas de humor, inúmeras gargalhadas na televisão, vinhetas de risos gravados! Risoterapia! Lembra do "mercado" do riso acima? O riso vem ganhando uma carapaça divina, onde se pode tudo, onde não há limites...
E em meio a tanta manifestação em favor da liberdade de expressão eu só consigo pensar: a violência é cruel, mas a impunidade também o é. A impunidade do riso é ainda mais cruel, porque tem como saco de pancada uma minoria e ainda faz o favor de o reforçar como o sem graça que não sabe rir, que leva tudo a sério, o "politicamente correto", o "chato"!
A impunidade do riso é estridentemente silenciadora: faz um rir, de um lado, e silencia o outro! E é ai que eu te convido ao pulo do gato: qual riso é saudável para quem?